22
Ago 12

12 de Novembro de 1865, foi a data da morte de Elizabeth Gaskell, a autora que expôs muitos dos dramas dos vários estratos sociais existentes no século XIX, na era vitoriana. As suas obras propiciaram não só o deleite de vários amantes da Literatura mas também o interesse de muitos historiadores sociais.

 

Em 25 de setembro de 2010, foi-lhe dedicado um memorial em Poet's Corner na Abadia de Westminster. O memorial tem a forma de um painel na janela do memorial Hubbard, acima do túmulo de Geoffrey Chaucer e foi dedicado pela sua trineta Rosemary Dabbs.

 

 Imagem retirada daqui

 

Do bico da sua pena, saíram contos e obras maravilhosas, uns mais mediáticos que outros, outros mais criticados que outros. São famosos até hoje. Provavelmente não no nosso país. Os mais conhecidos dos seus romances restantes são: Cranford (1853), North and South (1855), e Wives an Daughters (1865). E mesmo que a sua escrita esteja de acordo com as convenções vitorianas (incluindo assinar o seu nome "Mrs. Gaskell"), Gaskell normalmente emoldura as suas histórias com críticas de atitudes contemporâneas: as suas primeiras obras focaram o trabalho nas fábrica em Midlands. E sempre enfatizou o papel das mulheres, com narrativas complexas e dinâmicas personagens femininas.

 

BIBLIOGRAFIA DA AUTORA:

 

Romances

Novelas e coleções

Contos (parcial)

  • Libbie Marsh's Three Eras (1847)
  • Christmas Storms and Sunshine (1848)
  • The Squire's Story (1853)
  • Half a Life-time Ago (1855)
  • The Poor Clare (1856)
  • "The Manchester Marriage" (1858), um capítulo de A House to Let, co-autoria com Charles Dickens, Wilkie Collins e Adelaide Anne Procter.
  • The Haunted House (1859), co-autoria com Charles Dickens, Wilkie Collins, Adelaide Proctor, George Sala e Hesba Stretton.
  • The Half-brothers (1859)
  • The Grey Woman (1861)

Não ficção

 

Bibliografia para os três posts :

Wikipédia  #http://pt.wikipedia.org/wiki/Elizabeth_Gaskell

Books and Reviews #http://booksandreviews.wordpress.com/2012/03/25/mrs-gaskell-a-biography/

Brodie's Notes on Mrs Gaskell's North and South, Graham Handley, College of All Saints, Tottenham, MacMillan Press Ltd, 1988

                                Elizabeth Gaskell: 1851 retrato de George Richmond

publicado por Sandra F. às 22:49

20
Ago 12

A primeira experiência ligada à maternidade provou-se dramática para Elizabeth mas também foi a partir dessa experiência que nasceu a escritora. Na sua primeira gravidez, a criança do sexo feminino nasceu morta e, receosa que acontecesse novamente, na gravidez seguinte, ela iniciou um diário onde escrevia tudo o que se passava com ela e mais tarde com a sua primogénita Marianne, nascida em 1834. Em 1837, nasce Meta, a sua segunda filha e sobre essa época, Elizabeth escreve: "When I had little children, I do not think I could have written stories, because I should have become too much absorbed in my fictious people to attend to my real ones". Teria ainda uma outra filha, Flossy, nascida em 1842, e um filho, William, nascido em 1844 e falecido dez meses depois. Em 1846, nasce a última filha, Julia. Aquando da morte do seu filho William, foi o marido que a incentivou a recomeçar a escrever para se distrair e afastar o pensamento da tragédia. E assim começou a carreira desta escritora vitoriana.

 

As três filhas mais velhas de Elizabeth Gaskell (Marianne, Meta e Flossy)

Imagem retirada daqui daqui

 

Em 1837, morre a tia Lumb que lhe deixa uma pequena herança. Isso aliado à melhoria da situação financeira do marido, permite-lhe começar a viajar. Entretanto, começa a publicar textos anonimamente e depois sob o nome de Mrs Gaskell (ao contrário das suas companheiras Austen e as Bronte, mulheres solteironas e párias, Gaskell era uma senhora casada, com filhos e completamente inserida na sociedade, o que lhe trazia muito mais estatuto que às amigas, daí ter optado pelo nome de Mrs Gaskell). Passa a ir muitas vezes a Londres, sem a presença do marido que se mantém em Manchester, cultivando um estilo de vida diferente daquele que se espera de uma esposa vitoriana.

 

Torna-se então famosa e amiga de Charles Dickens. A sua primeira obra Mary Barton estabelece-a definitivamente como escritora apesar de criticada por retratar apenas um dos lados da revolução industrial e da depressão económica.Quando começa a publicar na revista Households Words de Charles Dickens, numa época em que a literatura é bastante consumida, torna-se numa referência para a faminta classe média com os seus textos seriados (excertos publicados com determinados espaço de tempo e que fazem parte de uma mesma história). Em 1850, já estabelecida na revista Households Words de Charles Dickens, compra uma casa, em Plymouth Grove, Manchester, para toda a família. Aí escreveu obras com North and South e Cranford.

 The Gaskell house at Plymouth Grove in Manchester (via Wikipédia)

 

É também em 1850 que conhece Charlotte bronte de quem se torna grande amiga e por quem sente uma grande compaixão. Sobre ela escreveria The life of Charlotte Bronte, a pedido da própria, e onde pretende honrar aos olhos do mundo a mulher que todos admiravam como escritora.  Contudo, a inserção de alguns factos incorrectos trouxeram alguns problemas a Gaskell que foram, no entanto remediados numa segunda edição desta obra, tornando-a num dos grandes clássicos de Elizabeth Gaskell e numa biografia soberba de Charlotte Bronte.

 

Sobre a sua relação com Charles Dickens, sabe-se de um mal-entendido passado por causa da obra Cranford. Elizabeth fez com que o fictional Capitão Brown fosse um apreciador da obra de Dickens The Pickwick Papers; no entanto, Dickens alterou essa parte da história sem o conhecimento de Gaskell, tornando a personagem apreciadora dos Hood's Poems. Gaskell não gostou da alteração, tendo ficado muito zangada e por isso Dickens desculpou-se, não querendo perder a amizade e o trabalho de Gaskell. No entanto, pouco mais tarde, ambos desentenderam-se novamente por causa da obra North and South, tendo Dickens mencionado que 'Mrs Gaskell showed a total disregard for the basic principles of serial publication, punctuality and regulation of lenght'. Apraz-me, contudo, saber da opinião de Mrs Gaskell sobre North and South (que, não fosse o desagrado de Dickens, se chamaria Margareth Hale) que, após a série de publicações, escreveu 'I meant it to have been so much better'. No entanto, foi a pressa de publicação de Dickens aliada à falta de profissionalismo demonstrado por Gaskell em edições anteriores desta obra, que originou o final tão apressado e quase forçado.

 

Ruth, uma história que foca problemas morais, sociais e sexuais da sociedade de então, é publicado em 1853, recheado de situações melodramáticas. Apresenta-nos a história de uma mãe solteira e a hipocrisia daqueles que se julgam religiosos e a quem falta compaixão, humildade e caridade cristã. Obviamente que este livro gerou um tumulto social muito grande mas Mrs Gaskell sabia no que se tinha metido e a coragem para escrever esta obra continuava expressa numa carta que escreveu a uma cunhada: 'Of course it is a prohibited book in this, as in many other households... but I have spoken out my mind in the best way I can, and I have no doubt that what was meant so correctly must do some good'.

 

Em Roma, Elizabeth Gaskell conhece Charles Eliot Norton, um estudante de História da Arte, dezasseis anos mais jovem que ela e ambos se sentem imediatamente atraídos um pelo outro. Dela, ele afirmava '...like the best things in her books; full of generous and tender sympathies, of thougtful kindness, of pleasant humor, of quick appreciation, of utmost simplicity and truthfulness...' Esta amizade permaneceu sem que invadisse a vida de casada de Elizabeth ou a sua devoção ao marido e à família.

 

O último trabalho de Elizabeth Gaskell, Wives and Daughters estava a um capítulo do seu final quando ela faleceu,em Novembro de 1865, vítima de insuficiência cardíaca, nos braços da filha Meta, na casa que comprara secretamente em Alton, Hampshire, com a secreta intenção de convencer William, o marido, a deixar Manchester e a retirarem-se para Londres na sua velhice. A típica senhora vitoriana com uma atípica vida vitoriana, morreu longe do seu marido, que num mesmo dia soube não só do seu falecimento como da existência da nova casa. Crê-se que, com esta última obra, Mrs Gaskell tenha atingido um alto nível de maturidade artística. Conta a história de Molly Gibson, filha do médico da aldeia, numa brilhante, evocativa e irónica imagem da vida provinciana e da depois segunda mulher do seu pai, Mrs Kirkpatrick, uma mulher fina, vaidosa, egoísta, superficial e doida.

 

The Gaskell Grave, Brook St Chapel, Knutsford

Imagem retirada daqui

 

Destaca-se que, aparte o seu estilo de vida pouco convincente socialmente, Elizabeth Gaskell contribuíu significativamente para a Literatura Inglesa, tendo sido subestimada e esquecida ao longo dos tempos. Escreveu maioritariamente sobre as mulheres da sociedade vitoriana e de como viviam em perigo de se tornarem párias. Contudo, apesar de tão importantes temas, Mrs Gaskell não é incluída em currículos de Literatura e não é famosa como devia ser.

 

Continua.....

publicado por Sandra F. às 19:30

19
Ago 12

"Sometimes, the life of authors is key to understand their works"

Elena, Blog Books and reviews #http://booksandreviews.wordpress.com

 

Quem me conhece nestas andanças bloguistas sabe que sou uma apreciadora feroz de North and South da escritora britânica Elizabeth Gaskell, seja da obra em si, seja da adaptação de 2004 da BBC. As outras obras desta autora, nunca li, mas a sua leitura está seguramente nos meus planos futuros, mesmo que em inglês, dado que no nosso belo Portugal não se fazem traduções desta autora ou outras semelhantes, vá-se lá saber porquê! 

                                                    Crédito da imagem: aqui

Assim sendo, e porque esta senhora merece o seu reconhecimento, mesmo que póstumo, como uma das grandes escritoras da era vitoriana, segue um breve texto sobre aquilo que foi a vida de Elizabeth Gaskell e ainda como nasceram as suas obras. É impressionante a vida dura que levou e a forma como ultrapassou tudo, sobretudo através da escrita. Far-se-à também uma breve conexão da sua vida com as suas obras, ou seja como situações que viveu influenciaram a trama das suas histórias.

 

Elizabeth Gaskell nasceu Elizabeth Stevenson em Chelsea, Londres, a 29 de Setembro de 1810, filha de um Curador do Tesouro que também tinha o gosto pela escrita mas que em nada influenciou Elizabeth como escritora. A sua mãe, Catherine, morreu passado um ano do nascimento da escritora  e depois de ter visto seis dos seus oito filhos morrerem por doença. Ficaram então a encargo do seu devastadado pai, Elizabeth e o seu irmão John. Contudo, pouco tempo depois Elizabeth foi mandada para o norte de Inglaterra, para a cidade de Knutsford, perto de Manchester, para viver com a sua tia Hannah Lumb, irmã da mãe, que a criou com amor e afeição genuínas. Sobre ela, Elizabeth escreveria mais tarde: "Oh! There will never be one like her". Manteve, contudo, uma relação próxima com o irmão que partiu em 1828 para a Índia, não tendo mais voltado a Inglaterra.

 Retrato miniatura de Elizabeth Gaskell em 1832 realizado por William John Thomson (in Wikipédia) 

 

Em 1814, o seu pai tornou a casar mas não manifestou intenção de ficar com Elizabeth. Ela permaneceu então em Knutsford onde foi encorajada a ler os Clássicos, tendo frequentado  a escola de Misses Byerley's em Warwickshire, onde a disciplina era firme mas afectuosa e com uma importante componente literária. A autora abandonou a escola aos dezasseis anos, em 1827, e  existem poucas informações sobre a sua vida após este período. O pai morre em 1829. Sem fortuna, praticamente orfã e longe da capital e dos grandes círculos sociais, as possibilidades de um futuro promissor estavam quase vedadas a Elizabeth. No entanto, em 1831 conhece o professor William Gaskell com quem casa em Knutsford em 1832. Ambos mudam para Manchester, onde William lecionava e começam a sua vida e a sua família.

 

 Knutsford antes da chegada das ferrovias

 Crédito da imagem: aqui

 

Similaridades da sua vida com as suas obras:

  • O seu pai abandonou o Ministério antes de casar, tal como Mr Hale em North and South.
  • O facto de se ter mudado da urbana Londres para Knutsford, no norte de Inglaterra, pode ter influenciado a criação da obra North and South.
  • Knutsford é usualmente comparada com Cranford, cidade fictícia imortalizada na obra com o mesmo nome.
  • A ida definitiva do seu irmão John para a índia assemelha-se à ida do irmão de Matilda Jenkins, igualmente para a índia, em Cranford. Salienta-se que na obra, Peter Jenkins regressou passados muitos anos, por intermédio de uma amiga de Matilda, o que podia expressar o desejo de Elizabeth Gaskell em rever o seu irmão. O amor fraternal prejudicado por circunstâncias da vida pode ainda ser visto em North and South (Margareth e Frederick Hale).
  • A capela em Brook Street onde a autora passou grande parte do seu tempo, na sua infância em Knutsford, é amplamente descrita no capítulo 14 da obra Ruth.
  • Muitas outras similaridades podiam aqui ser focadas. No entanto, como não li todas as obras de Elizabeth Gaskell, não sou a pessoa certa para o fazer. Todavia, tenho a certeza que muitas das suas histórias e tramas se baseam nesta sua vida que se revelou tão preenchida, difícil e interessante.

 Continua....

publicado por Sandra F. às 19:29

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